Entrevista

Pergunta: Quando e como foi seu primeiro contato com rádio?

Eu comecei no rádio quando era estudante de Jornalismo. Eu fiz minha faculdade na UFRGS, na Fabico, e lá como estagiária eu iniciei na rádio da universidade – eu lembro até hoje, foi no dia 8 de setembro de 1982 – eu lembro da data porque (risos) imediatamente associava à data nacional do sete de setembro, e dali de estagiária eu comecei no rádio, e permaneci na rádio. Depois, posteriormente fui contratada e estou na UFRGS até hoje.

Pergunta: Quando jovem, você já procurava alguma informação ou atividade que focasse o jornalismo?

Minha escolha pelo jornalismo foi um pouquinho naquelas entrevistas vocacionais que a gente faz no segundo grau antes de entrar pra faculdade. Na verdade mesmo eu queria fazer Filosofia ou História, mas achei que seria mais difícil em termos de mercado de trabalho e tudo mais. Então eu procurei o Jornalismo nesse sentido, da possibilidade de trabalhar com a comunicação, de estar exercendo esse aspecto da busca pelo conhecimento, e aí que eu acabei entrando no Jornalismo da UFRGS, então digamos assim que ela não foi uma coisa anterior. O que é anterior na minha vida é a minha relação com o cinema, que é onde eu me defini profissionalmente, eu trabalho com cinema, sempre trabalhei, e então o cinema sim. Se vocês me perguntassem se eu tinha um interesse por cinema, eu posso te contar da minha história de cinema desde que eu tinha dez anos de idade.

Eu tenho mestrado e doutorado em cinema, e a minha atividade em rádio, inclusive, ela é atravessada pela relação com o Cinema, porque os programas que eu tenho em rádio ou já tive, foram programas de cinema. Eu nasci numa cidade chamada Guaporé, interior do Rio Grande do Sul, e nós viemos pra Porto Alegre quando eu era criança – o meu pai veio de 68 pra 69 – eu era de um lugar que não tinha luz elétrica, não tinha nada, era escuro total. A iluminação era à base de lampião, porque era realmente um ambiente rural. E quando nós viemos pra Porto Alegre, o meu pai – eu tenho um irmão, uma família pequena, apesar de ser italiana, meu sobrenome é Lunardeli. digamos que esta geração é de um núcleo menor. E o meu pai chegando aqui, logo comprou uma televisão. E esta compra da televisão, a gente fazendo hoje já eu tendo uma visão sociológica sobre esse processo – ele comprou a televisão parcelada em vários pagamentos no momento em que estava em expansão em decorrência do projeto militar – a gente sabe que a ditadura no Brasil, como em vários países na América Latina, ela tem um traço nacionalista, e então dentro desse traço nacionalista estava o reforço às telecomunicações. É criada a Rede Globo, a Rede Nacional de Televisão, e aí junto com esse desenvolvimento tecnológico, a venda de equipamentos de televisão em um processo facilitado. O meu pai comprou uma televisão e aquela televisão passou a ser o centro do mundo (risos). Eu comecei a ver cinema na televisão. Eu via tudo na televisão. E aí depois eu não saía. Eu fui uma criança e uma adolescente, de certa forma, introvertida. Nisso o jornalismo me ajudou muito, porque o Jornalismo, como é uma atividade de extroversão, ele obriga a gente a fazer o movimento contra o outro – a comunicação – e isso me ajudou a vencer uma particularidade assim que era mais a timidez e a introversão. E aí foi na faculdade, quando entrei na Fabico, primeira semana de aula, uma professora de sociologia disse: “vamos ao cinema, assistam filmes, já façam fichinhas” (risos), então eu tenho uma formação de cinema na televisão, no audiovisual, no conceito de hoje, e a partir da faculdade aí o cinema mesmo.

Pergunta: E como falar no rádio de cinema?

É bem desafiante isso, e é bem interessante como a gente tem que trabalhar isso. Na rádio da Universidade quando eu entrei, em 1982, o programa que mais me interessava era o programa de cinema que havia. O programa do Hélio Nascimento, uma pessoa que eu acho que pode inclusive dar um belo depoimento aqui, porque ele é um dos nossos críticos de cinema. Não só do Rio Grande do Sul, mas da área nacional. Ele esteve ligado ao festival de gramado durante muito tempo e também tem livros sobre o cinema brasileiro publicado. E ele tinha um programa na rádio chamado Cinema de Segunda à Segunda, que ele inclusive gravava aos sábados, e eu aos sábados ia lá só pra assistir a gravação do programa de cinema do Hélio. E ele já era o produtor e apresentador desse programa, que existia já anteriormente na rádio desde quando ela foi fundada. A Rádio da Universidade, ela foi fundada das rádios pioneiras, foi pioneira nas rádios universitárias no Brasil. Foi uma das primeiras dentro de um projeto bastante moderno da UFRGS. Ela foi criada nos anos 50 e já naquele momento dentro da programação foi inserido um programa de cinema – o que é incomum, exatamente pelas dificuldades de trabalhar com uma mídia audiovisual em uma mídia que é sonora e que vai faltar o elemento principal que é o da imagem. Mas a Rádio [Universitária] tinha isso e o Hélio Nascimento assumiu nos anos 70. E qual é a ênfase em rádio para o cinema¿ É a música, porque ele também é um elemento importante para o cinema. E era assim o programa do Hélio. Chamava cinema de segunda à segunda, porque o cinema em Porto Alegre – não só em Porto Alegre, mas no mundo todo – o sistema de lançamento era feito na segunda-feira. A semana comercial da cinematografia começava na segunda e os filmes só mudavam na outra segunda. Então o programa chamava Cinema de segunda à segunda porque na segunda-feira entravam os filmes novos. Então era um programa sobre as estreias, informação, também havia opinião, e também havia junto com isto a música do cinema na metade do programa. Depois eu assumi o programa em 2002, na aposentadoria do Hélio Nascimento na rádio da universidade. Uma das coisas que eu introduzi de mudanças no programa… primeiro eu mudei o dia do programa, porque a rádio era, de certa forma, bastante conservadora, então já há muitos anos as estreias não eram na segunda e o programa continuava indo ao ar nas segundas-feiras chamando Cinema de Segunda à Segunda. A mudança de dia dos lançamentos começou nos anos 80, quando começa a mudar no cinema esse controle de borderô. Então o filme hote tem que funcionar no lançamento e ele funciona de sexta à domingo. E é essa média que define se o filme continua ou não em cartaz. Então o dia mudou para sexta-feira e quando eu assumi o programa, disse “bom, vamos mudar também aqui a proposta”, então o programa se chama Filmes e Trilhas e ele vai ao ar às sextas-feiras, exatamente para estar ancorado nos lançamentos. Eu trabalho na Faculdade de Comunicação hoje, né, eu sou jornalista, e na UFRGS eu entrei na rádio da universidade como jornalista e eu desenvolvo na faculdade de comunicação um projeto de extensão, um laboratório de jornalismo cultural – eu trabalhei bastante com jornalismo cultural, trabalhei no correio do povo, na rádio bandeirantes, em outros locais – e com o jornalismo cultural, os estudantes participam do programa produzindo os programas, produzindo o texto, e então o programa aborda essa dimensão, ele aborda cinema mas está integrado com o ensino também.

Pergunta: A senhora tem algum ídolo?

Eu até escrevi um livro sobre isso que é a minha tese de doutorado – a crítica de cinema em Porto Alegre nos anos 60 – e então o meu pensamento cinematográfico, como eu encaro cinema e a perspectiva que eu tenho, o tipo de cinema que eu dou valor e tal, ele é fundado e constituído por esses críticos de Porto Alegre. Esses críticos que quando entrei na rádio da universidade, e também quando comecei a me envolver com cinema, eu procurei o clube de cinema de porto alegre, e ele existe até hoje, é o mais antigo em funcionamento do Brasil. Assim como o Hélio Nascimento é o crítico mais antigo em atividade, ele continua escrevendo no Jornal do Comércio desde 1961, assim também como o clube de cinema, fundado em 47, continua ativo. E ali no Clube de cinema, naquele ambiente que começou realmente a se fundar essa visão de mundo de cinema. E o meu convívio era de pessoas daqui na UPF Gastal – o Paulo Fontoura Gastal, que foi um dos fundadores do clube, uma pessoa que me ensinou muito essa ética jornalística, e foi inclusive a primeira pessoa que me deu oportunidade de um exercício jornalístico. Eu ia na redação do Correio do Povo e ficava lá em volta dele, e era só porque eu gostava de cinema, e ele me disse um dia, tava vindo em Porto Alegre El viejo armazen, um grupo tango argentino e ele me disse “Vai lá e entrevista esse pessoal!” (risos) e lá fui eu entrevistar, e ele publicou a matéria. Foi muito legal. Aí então o Gastal – inclusive vocês aí na PUC, não sei se vocês sabem, mas o acervo do Gastal está aqui. É um dos grandes acervos de cinema do Brasil, porque o Gastal foi uma pessoa muito importante no cenário de cinema do Estado e no jornalismo cultural. Então juntou muita coisa nesse acervo ao longo da vida dele. Inclusive do clube de cinema, que inclusive tem nesse acervo – eu trabalhei muito no acervo do clube de cinema, quando ele estava instalado num outro lugar, porque eu escrevia a história do clube de cinema no livro Quando éramos jovens, a história do clube, e também fiz a minha pesquisa para o livro da crítica de cinema com vários críticos de cinema dos anos 60, e aí deixei as entrevistas no acervo, porque achei que ia ter mais funcionalidade aqui no acervo do que na minha casa. Como pesquisadora, pensando assim no valor dos documentos, da acessibilidade, estão lá. Então tu me perguntastes, quem são os que me influenciam ou me influenciaram. Tão lá entrevistas com o Hélio Nascimento, Iron Goidanich  – o Goida, querido Goida – o Gastal já era falecido quando eu já fiz a pesquisa, e tem entrevista com o Jeferson Barros – outro crítico desse período – com o Luiz Carlos Merten, com o Enéias de Souza. São todas as pessoas ali dessa época que eu entrevistei e deixei essas entrevistas em estado bruto no acervo.

Pergunta: como tu vê a crítica cinematográfica hoje?

Acho que a crítica nos anos 60 a centralidade dela se dava através da mídia escrita. Acho que a imprensa escrita e essa centralidade da crítica se davam nesses espaços. Eu acho que tem muito mais espaço pra opinião, eu não vejo isso como problema, acho que o exercício da troca de ideias é mais intenso. Essa autoridade do crítico se dissolveu um pouco, mas às vezes era uma autoridade que era uma ditadura, então eu acho que hoje existem microgrupos, as pessoas constituem comunidades, e ali elas trocam opiniões e isto produz uma mediação, uma forma de relação das pessoas com os filmes. A gente não tem mais essa autoridade de um único crítico. Várias pessoas podem dar a sua opinião, porque pra mim, o cinema é que nem o futebol, cada um pode dar a sua opinião, que ta fundado numa relação de gosto, “eu gosto, eu não gosto do filme”. É claro que as pessoas vão levar mais em conta a informação de um ou de outro crítico. Dependendo do que ele diz, porque quem diz muita bobagem, quem é que vai dar bola para bobagem? (risos) Então a respeitabilidade, essa autoridade se constitui pelo valor dessa fala. Então eu acho que os críticos que vão conseguir constituir uma autoridade, dependem do conhecimento de estética, de linguagem, de história do cinema.

Pergunta: Conta um pouco pra nós do período em que a senhora trabalhou na rádio Pampa.

Sim, eu trabalhei inclusive aqui com a diretora da faculdade, a Magda, fomos colegas de redação. Quando entrei na rádio, além de estagiária eu passei para produtora e editora e apresentadora de uma revista cultural, um programa que funcionava como uma revista sobre os eventos culturais de 15 minutos com entrevista diário na faculdade. Então eu procurei conciliar com uma outra atividade no mercado externo. E aí surgiu uma vaga na rádio pampa, que estava sendo criada naquela ocasião – isso foi em 1983 e aí eu busquei essa vaga, era o Figueiredo que era o coordenador do projeto da rádio, um projeto jornalístico, que entrou com essa intenção de concorrência com o modelo da rádio Guaíba e a rádio gaúcha, que desenvolviam um modelo de entrevistas…  então eu lembro na ocasião que saíram da rádio Guaíba o Rogério Mendelski, que estava ali começando, o Lauro Quadros, a Tânia Carvalho tinha um programa na rádio também, era produzida pela Vera Carneiro, Lelei Machado… com esse programa de entrevistas, com os apresentadores, e com a Tânia e mais variedades. E eu trabalhava de manhã na redação, o programa começava com… o trabalho na redação era produção de noticiários, né, e começava a trabalhar muito cedo, às seis horas da manhã, um horário bem ingrato (risos). Depois acabou mudando e eu sei que lá pelas tantas eu estava às sete horas da manhã. Nós fazíamos redação de notícias, a partir da coleta dos jornais do dia, reescritura que se faz ainda hoje em rádio, e também para os noticiários em sequencia, a partir também de material dos repórteres.  Inclusive foi numa dessas situações que eu decidi que não ia mais trabalhar em rádio daquela maneira. Porque acho que rádio, existem duas funções em jornalismo que eu acho particularmente estressantes: televisão e rádio ao vivo, quando a gente tem que botar matéria no ar, é muita pressão de horário e tudo mais, a gente tem pouco espaço para a administração e tem que solucionar imprevistos. Era um noticiário que estava indo ao ar ao meio-dia, 13h30 – era um horário importante – era um sábado, inclusive, e estava me Porto Alegre na época o senador Chiarelli e o repórter estava no aeroporto tentando buscar a entrevista com a chegada do senador e era a notícia que ia ao ar. Era o Lauro Haagmann  o locutor do programa. O Lauro foi um dos importantes jornalistas e radialistas do RS, foi um dos criadores da rádio universidade, e depois foi vereador, político e tudo mais. Pessoa belíssima, o querido Lauro. Ele era o locutor da rádio e o repórter atrasou, não conseguiu, essas coisas de atrasar voo, e eu era a redatora pra qual ele ia passar a matéria pra colocar no ar. O noticiário ia entrar no ar, eu já tinha dado a notícia de qual ia ser a última notícia e o repórter me passando e eu redigindo e o editor de pé me esperando pra eu terminar a notícia. As máquinas eram mecânicas, não eram nem elétricas, eram de ferro. Aí eu terminei a notícia, entreguei tremendo para o editor. “então muito obrigada, essa experiência eu não preciso mais” (risos). Então é um tipo de coisa que quem curte muito adrenalina é ótimo, mas é muito exasperante essa pressão do tempo, do horário e tudo mais. Deu tudo certo, a notícia foi no ar, mas é bem estressante.

Pergunta: Como tu vê a relação da mídia com o audiovisual no que se refere ao espaço.

Tem muito espaço para o audiovisual. O que a gente tem hoje, no que se há de valor de redução da sala de cinema, porque se hoje as pessoas frequentam menos as salas de cinema e a sala de cinema dentro de um modelo comercial acolhe um longa metragem narrativo dentro de duas horas de gravação dentro de uma grade, então é uma oferta de um produto repetidamente a cada duas horas. Então, se há uma queda de interesse de valor econômico, por outro lado, o audiovisual ganhou n plataformas e formas diferentes que não é mais aquele modelo narrativo. Então temos desde produções de um minuto, geração de conteúdo para celular, por exemplo, e tudo envolve aquele conceito amplo que não é mais cinema, é audiovisual, que envolve uma linguagem audiovisual, uma linguagem sonora. Então eu diria que hoje se ampliou muito mais o espaço. A nossa cultura é uma cultura da imagem. A nossa cultura está imersa na troca de informação pela imagem. Para o bem e para o mal. O excesso gera uma angustia e ao mesmo tempo é o que nos constitui como sujeitos contemporâneos.

Pergunta: Quais as diferenças entre as rádios comerciais e as universitárias?

Eu só conheço a Rádio da Universidade. Então como eu acabei me dedicando um pouco mais ao cinema, eu tenho pouca informação do mundo do rádio, do ambiente do rádio, das transformações. Porque eu trabalhei na rádio pampa nesse período, trabalhei no correio do povo, trabalhei cerca de 4 anos, 3 anos e meio em jornalismo cultural, na editoria de cultura escrevendo sobre cinema, e depois desse período eu trabalhei com programação de sala de cinema – na UFGRS eu deixei a rádio da universidade e fui para sala de cinema da UFRGS e passei quase dez anos trabalhando com produção cinematográfica dentro da universidade, e na sequencia eu fiz mestrado e doutorado e também minha outra experiência de rádio foi na rádio pampa [ela se refere na verdade na rádio bandeirantes] em que eu só tinha um programa de cinema aos sábados. Era cinema e vídeo eu acho que era o nome do programa. Era um programa de uma hora de duração, também com ênfase em música. Inclusive a programação musical não era nem eu que fazia, era o programador musical da radio bandeirantes porque ele mantinha a linha musical da rádio. A rádio Bandeirantes, isso foi em 93, 94, por aí, era o Felipe Camarão, que era o editor da programação. Foi uma época de ouro da bandeirantes. Depois esse perfil do público foi capturado pela gaúcha e depois pela Itapema. Essa classe média assim, do padrão musical. E o Camarão fazia a programação, e a minha experiência de rádio externa foi essa, e depois na rádio da universidade. E eu nem trabalhei na rádio. Na Bandeirantes eu só ia pra rádio aos sábados, apresentava o meu programa, e voltava pra casa. E entre as coisas interessantes desse aspecto do tempo. Rádio é tempo, é horário. Com os alunos de cinema na UFRGS, a gente produz conteúdo dentro daquele tempo de duração. Nós temos 30 minutos, e não é 25 nem 35, é 30, e eu na rádio bandeirantes tinha quatro minutos de texto rigorosamente, não podia passar disso, em que eu dava dicas de estreia e de lançamentos em vídeo. E o resto do tempo era música. E o camarão era extremamente rigoroso com esse aspecto do rádio, e ele ouvia sempre, e de casa às vezes eu falava quatro minutos e 30 segundos, e ele ligava furioso (risos). Aí ele me xingava, dizendo que as pessoas não queriam saber de conversa, elas queriam saber de música, e que eu não devia ficar falando (risos). Então ele tinha este cuidado muito grande pra não sair da proposta do rádio. Num programa da rádio universidade, que é a minha experiência em rádio universitária, conforme a proposta da rádio da UFRGS, a gente pode colocar uma entrevista, fica 30 minutos conversando, o assunto é de interesse. Às vezes são assuntos até mais difíceis, porque muitas fontes da rádio da universidade são científicas, são professores e pesquisadores da universidade, tem programa sobre saúde, sobre questões sociais, então às vezes o assunto é até árido, então não há uma preocupação no sentido de agradar ou manter o ouvinte que poderá se dispersar em função da falta de prazer dele. Há uma preocupação de informar, de concluir o pensamento, de fornecer a informação em sua complexidade, em função até de um perfil do ouvinte da rádio da universidade. Outro aspecto da rádio da UFRGS é que não há nenhuma preocupação comercial, então não temos nenhum insert comercial. Os únicos inserts são de chamadas dos nossos programas, o que é diferente de uma rádio comercial, que a gente ouve música… a rádio que eu ouço é a Itapema, e eu com frequência desligo o rádio, prefiro o silêncio do que aquela quantidade tão grande de chamadas comerciais e então, até chegar no conteúdo que interessa… eu gosto de ouvir a rádio FM cultura, a rádio universidade, que são rádios que desenvolvem longamente… às vezes eu vou no programa do Lauro quadros conversar, tem quatro ou cinco entrevistados, e eu consigo falar quatro minutos ao longo de uma hora de programa, porque tem tanta entrada comercial… é um programa que precisa fazer entrada do repórter na rua, dos entrevistados e tal que a gente não consegue desenvolver um programa mais longamente.

Pergunta: Quanto tempo durou o programa na bandeirantes?

Cerca de três a quatro anos. Foi o período que eu fiquei na rádio. Saí porque havia a proposta de escrever no jornal pioneiro sobre crítica de cinema, e aí então eu de novo mudei de mídia. Parei com essa coisa do rádio e fui escrever texto de cinema. Eu enviava meu texto ainda na época por fax, não tinha essa tecnologia.

Pergunta: Em uma de suas conferencias, tu abordastes a função do narrador no cinema. Tu achas que tem alguma relação com o rádio a função do narrador do cinema que é uma interferência puramente de áudio?

Quando eu abordo o tema do narrador no cinema é dentro de um estudo de narratologia, estudos de narrativa. Claro que dentro do rádio eu posso ter um narrador, mas no rádio é puramente informativo. O narrador dentro de um texto narrativo, qual é a função dele? Então até temos estudos do narrador no texto jornalístico, mas esse é discursivo, que n está estruturado a partir da narrativa: constituição de personagem, situações e tudo mais. Porque no programa de rádio que temos hoje, o filmes e trilha, e em outros que abordei cinema, no rádio, o texto é informativo e o desafio é como fornecer o conteúdo que é visual para o ouvinte do rádio. Então a linguagem que predomina é a do rádio. O texto precisa ser objetivo, claro, imediatamente explícito, não pode ser estrutura de frase direta, simples porque eu sempre falo para os alunos se o ouvinte está ouvindo e passa um carro ele perde a informação, então ela precisa ser redundante. Então a gente está dando uma informação de uma estreia de filme, trabalha-se a nível informativo mesmo, quem é o diretor, se ganhou prêmio, informações sobre o filme. O ouvinte quer saber o que é , quem fez, quem são os atores. E um pequeno resumo, mas muito simples e sintético, onde entra um pouco de narrativa, mas não pode deixar a história complicada ou complexa. E um detalhe curioso no texto de rádio, num texto escrito eu posso dar o nome dos personagens do filme e o nome dos atores que interpretam os personagem, em rádio eu peço que eliminem o nome dos personagens. Porque para o ouvinte quanto mais clara a informação mais facilmente ele vai capturar. Então não me interessa saber que o Bob foi interpretado pelo Jack Nicholson, quem é o Bob não importa, o Jack Nicholson todo mundo sabe, importa dizer que o Jack Nicholson interpreta um personagem que tem dificuldade de relacionamentos e encontra a mulher da sua vida. Está caracterizado o personagem e a situação. Porque o que se tem que evitar em rádio e textos sobre filme é lista. Não adianta listar todos os filmes do diretor, isso não vale nada. Tem que dar o nome de um filme importante que ele ganho prêmio ou o mais conhecido.

Pergunta:Teu último livro, lançado em 2008, A crítica de cinema em Porto Alegre, na década de 60, ele surgiu da tua pesquisa de doutorado. Conta um pouco pra gente um pouquinho desse teu livro e como surgiu a ideia de fazer os dois anteriores a ele.

O meu primeiro livro que é sobre os trapalhões, O psit, o cinema popular dos trapalhões foi publicado a partir do trabalho de mestrado, eu fiz na USP, na Escola de Comunicações e Artes, e aí o interesse pelos trapalhões, na época eu programa a sala de cinema da UFRGS, a sala Redenção, e tinha muito contato com os distribuidores de filmes, e era evidente a enorme disputa dos distribuidores de filmes pra terem os filmes dos trapalhões para colocar nas salas de cinema, porque fazia muito sucesso.

Pergunta: Teve uma época em que os trapalhões carregaram o cinema brasileiro nas costas.

Fazia mais de cinco milhões de espectadores. E por outro lado eu via que a crítica detestava os trapalhões. Sempre falava mal, então eu precisava saber o que acontecia que tantas pessoas gostavam dos filmes e um outra opinião balizada que acha que esse cinema não tem qualidade. Eu pesquisei foi muito bom, entrevistei o Renato Aragão, foi muito estimulante, muito rico porque o meu ponto de partida sempre é esse prazer que eu mesma sinto com cinema. Então me interessa saber essa relação de satisfação que o cinema proporciona para as pessoas. Mais do que só um estudo, um interesse estético pelo cinema. O interesse estético junto com o significado social e cultural, sociocultural do cinema. Na sequência, quando eu encaminhei o projeto de doutorado, eu me voltei para o cinema do Rio Grande do Sul, mas não me interessava fazer uma pesquisa sobre a produção cinematográfica, de novo me interessava saber porque  cinema fazia sentido pra mim, nesse aspecto, no sentido como expectadora e como consumidora. E dentro desse pensamento que foi se constituindo, a pergunta era como é porque eu gosto do cinema do jeito que gosto? Eu gosto de faroeste, por exemplo. E não é muito comum, dentro de um determinado perfil, este interesse por filmes deste estilo. Era uma coisa que eu não entendia porque eu gostava. Aí que eu desenvolvi esse projeto de pesquisa pra saber quem fez a minha cabeça, foram esses críticos daqui, ai eu queria saber, quem fez as cabeça deles, porque automaticamente, quem fez a cabeça deles, fez também a minha. Digamos que nós somos herdeiros de um pensamento de cinema, todos nós, porque o que a gente pensa e sabe, vem de algum lugar.  Se a gente quer saber porque pensa o que pensa é só fazer um pouquinho de estudo genealógico que a gente vai descobrir. E aí então é que surgiu essa pesquisa do doutorado. E junto com essa pesquisa, dentro desse movimento de mexer com documentos e tudo mais, envolvia a história do Clube de Cinema de Porto Alegre, e na ocasião o clube fazia 50 anos, foi em 1998, e eu recebo o convite da Secretaria de Cultura de Porto Alegre, a coordenação de cinema tem esse projeto excelente que chama Escritos de Cinema, a Coordenação de cinema, vídeo e fotografia da prefeitura de Porto Alegre, tem recuperado o pensamento da cultura cinematográfica do RS, o primeiro livro editado foi Antologia com as Críticas, do Gastal, e muitos outros, então, eles me convidaram pra fazer um livro que fugia um pouco disse, eles sempre trabalharam com material pronto, coletâneas de textos d críticas já publicadas, e no meu caso era o desenvolvimento de uma pesquisa, a pesquisa era sobre o clube de cinema. E eu pude falar, daí tu falaste em narrador, eu pude assumir essa primeira pessoa, nesse sentido de um relato que era científico,e eu trabalhei com uma metodologia de pesquisa, trabalhei com uma fundamentação teórica, mas eu basicamente pude também falar em primeira pessoa, de como foi ser cineclubista, qual o sentimento da cinefilia, e entrevistei muitos cineclubistas antigos e contemporâneos reconstituindo toda história do clube de cinema ao longo desses cinquenta anos em que eu não desenvolvi uma história cronológica, eu desenvolvi uma abordagem transversal por temas, então um dos episódios interessantes que aconteceram no clube de cinema nos anos sessenta.

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